Terraço do Canal Real
Pegamos um táxi e fomos pra nossa nova casa. Felizmente, tínhamos as chaves já que nos mudaríamos no outro dia. A casa, obviamente, não estava limpa ainda ou organizada. Chegamos, colocamos a roupa de cama que tinha sido lavada recentemente e estavam ainda úmidas nos colchões e fomos dormir. Apesar de tudo, sentimos uma grande liberdade em ter deixado pra trás a extorção e o mal estar que foi a outra casa. O aquecedor ligava só quando era meia noite. Até lá, estávamos confinados às camas e edredons. Essa noite fria, de reflexão sobre o nosso confronto com a dona da outra casa e sérias dúvidas sobre termos feito a coisa certa em vir pra Irlanda foi também comemoração. Pela primeira vez alugávamos uma casa sem nossos pais, em outro país, com negociação toda feita em inglês. Estávamos já há um mês na Irlanda e o encanto inicial começava a dar lugar a questões muito sérias:
- Quando iríamos conseguir emprego;
- Até quando o dinheiro que tínhamos duraria;
- Iríamos ter condições de ficar ao menos até o fim do nosso curso ou voltar com o rabo entre as pernas depois de ter deixado um bom trabalho pra trás.
- Como ficaria a nossa vida afetiva uma vez que a gente só conhecia pessoas que estavam na Irlanda por um curto período, onde iríamos estabelecer relações de amizade e afetivas novas?
Essas são todas questões para as quais não tínhamos respostas e que, simultaneamente, não admitem serem adiadas. O resultado é uma tristeza cumulativa feita de incertezas que não são resolvidas e saudades da certeza que tínhamos e deixamos para trás. Novamente o mal estar no mundo capitalista de não estar participando da economia. Os olhares de julgamento que as pessoas distilam sem perceber quando você pega tudo do mais barato no mercado. A sensação estranha de quando as pessoas se dizem cansadas por terem trabalhado o dia todo. Fomos aos poucos nos isolando em nossa tristeza e um a um precisando de um tempo a sós que não acontecia porque moravamos todo em um grande cômodo com uma cozinha.
O rapaz com quem eu falava desde que morava no Brasil estava em um relacionamento com um Mexicano e viajou para a Espanha.
Você só se dá conta do luxo que é a solidão, quando vive 24h do seu dia com pessoas que são muito distintas de você. No Brasil, meus pais e minha irmã trabalhavam, então não era raro um de nós estar só, esses momentos de repensar as situações que salvam as pessoas de se odiarem. Começou então um rodízio de pessoas a se mudarem para o outro quarto na casa. Um francês que andava de cueca pela casa e queimava tudo o que cozinhava, um espanhol que não falava nada de inglês, um italiano que ficou só alguns dias, etc. Entre nós, crescia uma animosidade, uma irrritação com os nameirismos um do outro, amigos de nós três no Brasil começaram a falar conosco: está tudo bem? Pessoa A parece triste, pessoa B comentou que estava chateado.
***
Como estudante, conseguir emprego na Irlanda significa que você tem que ter um inglês bom embora esteja lá pra estudar inglês, tenha disponibilidade embora tenha uma carga horária a cumprir no curso e um limite rígido de horas que pode trabalhar, tenha experiência embora seja de uma área completamente distinta e tenha referências locais, embora tenha acabado de chegar de outro país. O jeitinho brasileiro: mentir no currículo sobre suas experiências, pegar referência com alguém na escola e tentar parecer que sabe o que tá fazendo na entrevista.
Com algumas dezenas de currículos distribuídos, fui chamado então para a minha primeira entrevista de emprego. Eu, do alto da minha arrogância letrada, frequentador de mais de um curso superior, três línguas etc etc, indo a uma entrevista para trabalhar num quiosque fritando donuts. A equação na minha cabeça. por incrível que pareça era: fritar todos os donuts, juntar todo o dinheiro, viajar pela Europa e voltar ao Brasil. Acordei cedo, tentei me vestir da maneira mais formal possível que não fosse pretensiosa e fui em direção ao Donut Rolante ....


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