Chegada
Éramos três: eu, Lauro e Lucas. Após a despedida de Brasília, parada em São Paulo e Amsterdã, chegamos em Dublin. Em pleno inverno irlandês, no norte da parte fria do mundo, esperávamos chegar e ter hipotermia em segundos. Mas, surpreendentemente, a temperatura de 5 graus em nossa chegada não veio com uma sensação térmica tão baixa nos primeiros dias. Passamos pela imigração sem muitos problemas (o que eu aprenderia em outras viagens que foi muita sorte ao se passar pelo aeroporto de Dublin). Fomos, depois de 24 horas viajando, ao banheiro, revezávamos quem ficava com as malas e logo a segurança do aeroporto informou que deveríamos sair da área de desembarque assim que possível e usar os banheiros do lado de fora. A paranóia nos aeroportos europeus com terrorismo e malas que mudam de pessoas é surpreendente. Comemos bagels (5 euros cada, começou aqui o medo de não ter dinheiro bem rápido) e a dificuldade máxima dos brasileiros em Dublin: não tem suco a não ser os "Kapo" da vida.
Seguimos para o ponto de táxi para irmos à casa da nossa hospedeira. O taxista estava esperando do lado de fora do taxi fumando e disse que podíamos entrar. 1º choque cultural: um de nós ia entrando do lado do motorista. Na Irlanda, como na Inglaterra, dirigem do lado contrário ao lado em que dirigimos no Brasil. Ele perguntou o endereço pra onde iríamos e disse que ligaria pros nossos hospedeiros para confirmar.
Os nossos hospedeiros disseram que pensavam que chegaríamos só no dia seguinte, e o nosso quarto ainda não estava livre. Mas, como foi erro deles e não tínhamos outro lugar para ficar, fomos pra lá.
Chegamos, o taxista cumprimentou o filho da nossa hospedeira (nesse ponto o sotaque da classe média irlandesa foi absolutamente indecifrável) e ele nos dirigiu a sala de estar. "Minha mãe não chegou ainda, mas aqui está o bule, podem ficar à vontade"
A mensagem foi meio críptica para mim no momento, pra quê um bule? Mas após um tempo vivendo na Irlanda entendi a premissa: se você tiver onde sentar e chá à vontade não há nenhuma razão pra reclamar de nada. Não interessa se o bule elétrico que eles têm aqui não tenha nada a ver com o que estávamos acostumados. Hoje eu sei que se chegarmos a algum irlandês e dissermos: "Tivemos que esperar por duas horas, mas aí a gente sentou no sofá vendo televisão e tinha chá" a resposta provável é : ah sure, you're grand then!
Com duas camas para três pessoas porque nosso quarto não estava livre, tivemos que dormir juntos. Acordamos enxarcados de suor. A hospedeira, no imaginário de país pequeno dela, pensou que se os hóspedes brasileiros que vêm de Salvador ou Recife morrem de frio , nós também iríamos e o aquecedor estava no máximo.
Morar numa acomodação de estudantes traz uma sensação estranha de não estar em casa. mas ter que se contentar. O inglês dos nossos colegas também era muito aquém do nosso, então seria difícil fazer alguma amizade. Nesse primeiro mês fomos gradualmente de ver a nossa hospedeira como uma santa, até entendermos que o preço que ela cobrava era absurdo para a qualidade da acomodação.
A nossa porção diária de batatas e alguma carne + feijão ou ervilhas , parte dos 180 euros por semana por pessoa que pagávamos, foi descoberta na passagem nos supermercados mais baratos com um custo médio de 2 euros pra cada um. Fomos de "nossa, não comemos aquele pão que acabou mofando, que peso na consciência." para estamos sendo cobrados cerca de 80 euros na semana por algo que não custa 15. Começamos a procurar outro lugar para morar.
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A nossa porção diária de batatas e alguma carne + feijão ou ervilhas , parte dos 180 euros por semana por pessoa que pagávamos, foi descoberta na passagem nos supermercados mais baratos com um custo médio de 2 euros pra cada um. Fomos de "nossa, não comemos aquele pão que acabou mofando, que peso na consciência." para estamos sendo cobrados cerca de 80 euros na semana por algo que não custa 15. Começamos a procurar outro lugar para morar.
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Os ônibus em Dublin não têm cobrador e eles não aceitam notas ou dão troco. As passagens são cobradas de acordo com quantas paradas de ônibus depois você vai descer, quanto mais longe mais caro. Tem uma máquina que conta as moedas onde você joga o dinheiro e o motorista te dá um recibo que fala quanto de troco você tem direito (você tem que ir no escritório da empresa de ônibus para pegar o troco). Em suma: resolva o seu cartão de passagens de ônibus assim que possível. Com apenas uma semana para o natal, tentar abrir contas em banco, pegar o número semelhante ao CPF (PPS aqui) e todas essas questões que aqui na Irlanda sempre estão ligadas a um comprovante de residência, não foram o que esperávamos da nossa primeira semana de "férias do Brasil". Mas logo elas chegariam...


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