Kicked out


A nossa procura por um lugar para morar se provou extremamente frustrante. Não sabíamos ainda se ficaríamos até Dezembro de 2014 e todas as pessoas alugando as casas exigiam, ao menos, um contrato anual. Além disso, a comunidade brasileira internacional, ao menos a daqui da Irlanda, é composta de pessoas ignorantes em relação à representatividade que têm, e muito pouco cautelosa no impacto que as ações deles vão ter.

 Ora, se um Irlandês conheceu três brasileiros e os três deram calote, nós sabemos que não é uma quantia razoável num universo de 200 milhões de brasileiros, mas pra ele representa cem porcento dos brasileiros com quem ele teve contato. Ignorância deles? Com certeza! Mas você não pode esperar que as pessoas sejam educadas a vida toda com uma imagem de um povo que mora do outro lado do mundo, reforçado por experiência pessoal em 3 casos, que arrisque novamente sem pensar duas vezes. Resultado: muitos anúncios de aluguel diziam que não alugariam para brasileiros ou latinos. [Depois de um tempo aqui, a visão que temos da comunidade brasileira internacional muda um pouco, mas achei importante registrar como eu me sentia então]
As acomodações de estudantes, por sua vez, ou eram caras (nesse ponto, nenhum de nós tinha emprego ainda, cada um com pouco mais de 3000 euros), ou estavam cheias de alunos da América Latina e Europa com dificuldades extremas em se inserir num contexto em que só inglês é falado. Resultado: não alugam para brasileiros, latinos e até italianos para evitar criar uma mini comunidade que seja qualquer coisa que não anglofalante. 


Finalmente, recebemos telefonema de um corretor e marcamos de ver um apartamento para nós três. Era o apartamento quase ideal pras nossas necessidades: três quartos, cozinha e sala modestos, mas funcionais. Um pouco longe do centro da cidade, e um pouco caro. 1200 euros por mês (400 pra cada). Lauro e eu queríamos alugar o apartamento na hora e nos livrar de onde morávamos (tínhamos apenas alguns dias antes de ter que pagar um preço exorbitante por mais algumas semanas).

Schoolhouse Lane - O apartamento que fomos ver

Lucas estava mais cauteloso em relação ao preço pensando nos outros 100 euros mensais de condução e comida etc. o que nos faria ter que correr pra conseguir um emprego. Dissemos que iríamos pensar um pouco e ligar no outro dia.

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Erro de amador. Aqui em Dublin, alugar uma casa funciona como comprar uma antiguidade com um preço bom num feira de usados. Se você não decide na hora, no outro dia a feira já acabou. Precisamente o que aconteceu conosco, ligando às 8 da manhã, outras pessoas já haviam alugado o apartamento. Lauro e eu ficamos chateados com Lucas porque agora teríamos pouquíssimos dias para alugar algo nas condições que eu já mencionei.

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Após uma estabilidade absoluta de cerca de 23 anos morando com a minha família, a ideia de ficar desalojado em outro país em pleno inverno europeu é assustadora, tão assustadora quanto a ideia de comprometer uma grande parte do orçamento em um lugar que não estávamos felizes (a casa da tal família) e depois não ter dinheiro para o resto de nossa estadia. Me lembro de não ter prestado muito atenção nas aulas nesse dia, de olhar pras pessoas na rua com um sentimento de inferioridade e fragilidade, coisas que eram muito caras a mim nas minhas pesquisas com minorias e representatividade na literatura, mas que no Brasil eu só tinha sentido muito de leve. Aqui uma série de facetas da minha identidade estavam, de alguma forma, sob ataque e tudo o que eu era e todo o meu esforço não importava ou interferia (curso superior e todas esssas coisas nas quais nos escoramos pra fazer nossa voz ouvida no Brasil). Classe média baixa, morador de periferia e homossexual, o que já me causava atritos na minha vida no Brasil, não era nem de perto tão desconfortável quanto quando os seguintes fatores são adicionados: estar desempregado, ser de uma minoria racial/nacional e estar isolado da minha família,  É um sentimento francamente muito perverso, e é difícil imaginar ter muito em comum com quem nunca passou por isso depois que você passou (há um incidente que ccontarei na próxima postagem).

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Conversamos com a mãe da família que nos hospedou que iríamos precisar ficar mais algumas semanas. O que pra ela seria ótimo, ganhando 720 euros por semana para algo que dificilmente valia 200. 

Felizmente, no último dia antes das semanas adicionais, Lucas conseguiu marcar de vermos um "studio" com um preço bem razoável, não muito longe de onde estávamos. Um grande quarto com duas beliches e um sofá e cozinha compartilhada com outro quarto no apartamento. Fechamos negócio imediatamente (gato escaldado tem medo de água fria) pegamos a chave e nos mudaríamos pela manhã no outro dia. 


Voltamos para a nossa "família" hospedeira para contar a novidade para a dona da casa: 
- Conseguimos um lugar para morar e vamos nos mudar. 
- Ah sim, ok, quando? *pensando nos 720 euros*
- Amanhã. Conseguimos um lugar de última hora. 
- Nossa, mas eu cancelei umas reservas que eu tinha porque vocês disseram que ficariam mais algumas semanas... *Vários outros quartos vazios na casa*
- Por isso que a gente te pede mil desculpas e se você quiser uma porcentagem da reserva porque cancelamos, a gente paga sem problema. 
- Não, tudo bem, deixa pra lá, amanhã vocês se mudem então...

Jantamos e fomos para os nossos quartos. Lauro e eu começamos a arrumar nossas malas, Lucas preferiu deixar para depois que tivesse descansado do jantar etc. Às nove da noite o marido dela aparece no quarto do Lucas:

- Vocês sacanearam com a gente! Vocês poderiam ter avisado que iam alugar outro lugar! Vocês falam inglês, não é falta de saber se comunicar!
- A gente literalmente foi ver hoje essa casa e já fechamos tudo com o cara, pra não perder a oportunidade.
- Não, deixa estar, é assim mesmo... Vocês sacanearam a gente, a gente vai ter que sacanear com vocês então. A gente conseguiu pegar aquelas reservas de volta, mas vocês vão ter que sair daqui agora, uma hora pra vocês arrumarem as malas de vocês e sairem. 

Como já estávamos com a chave do outro lugar, decidimos antecipar a nossa mudança e não discutir. Lauro e Lucas ainda tinham roupas no varau. 

- A gente pode ir pegar as nossas roupas no varau? Tem que ir por dentro da casa de vocês pra chegar no quintal. 
- Não. 
- Então você poderia pegar, por favor, as nossas coisas?
- Não, to sem sapato. Depois mando pra escola de vocês. 



Saímos as 9:45 da noite, temperatura de 4 graus, com nossas malas, pensando em como chegaríamos ao nosso novo apartamento...

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